A popularização das bets no Brasil acostumou o público à ideia de prever resultados e ganhar dinheiro com isso: só no primeiro semestre de 2025, cerca de 17,7 milhões de brasileiros fizeram apostas esportivas, segundo o Ministério da Fazenda.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, ganha força um modelo aparentado, mas com outra lógica e outro grau de regulação: os mercados de previsão, em que eventos econômicos, políticos e até de cultura pop são transformados em contratos negociados como ativos financeiros. Apesar de à primeira vista bets e prediction markets lidarem com “previsão”, eles operam em campos distintos.
A seguir, destacamos 3 pontos para entender essa diferença:
1. Nas bets esportivas, o usuário aposta contra a casa, com odds definidas de antemão: No modelo de apostas esportivas de quota fixa, predominante no Brasil, a plataforma define previamente a odd, a taxa de pagamento, para cada resultado: quem vence o jogo, quantos gols saem, desempenho de um jogador e assim por diante. O apostador sabe antes quanto pode ganhar e quanto pode perder; depois de confirmada a aposta, a odd não muda para aquele bilhete. A casa assume o risco, calcula probabilidades e ajusta os números para, em média, ganhar no longo prazo. É um sistema estruturado como jogo e entretenimento.
2. Nos mercados de previsão, participantes negociam contratos entre si, e o preço reflete probabilidade: Em vez de apostar contra a casa, quem entra em um mercado de previsão compra e vende contratos ligados a perguntas específicas: “tal candidato vencerá a eleição?”, “a inflação ficará acima de X?”, “a agência reguladora tomará determinada decisão?”. Cada contrato paga um valor fixo se o evento ocorre (normalmente algo como “sim” ou “não”) e não paga nada se ele não se concretiza. O preço desses contratos oscila entre centavos, por exemplo de US$ 0,01 a US$ 0,99, de acordo com a percepção da probabilidade de o evento acontecer. Plataformas ganham cobrando taxas em cada operação e em serviços como depósitos e saques.
3. Enquanto o Brasil consolida as bets, os mercados de previsão seguem sem enquadramento claro por aqui: Nos Estados Unidos, mercados de previsão regulados convivem com versões descentralizadas, baseadas em blockchain e operam com diferentes graus de supervisão. Em países como Estados Unidos e Nova Zelândia, há marcos específicos que enquadram esses mercados entre instrumentos financeiros e jogos. No Brasil, por outro lado, a legislação ainda não classifica essa categoria: as bets de quota fixa foram regulamentadas e ganharam espaço de mercado, mas os prediction markets, não têm hoje base legal para operar.
Para reguladores e mercado, a linha entre jogo e informação é estratégica. Para quem acompanha o ambiente regulatório e o mercado de crédito e capitais, entender onde termina a “bet” e começa o “mercado de previsão” ajuda a enxergar tanto os riscos quanto as oportunidades que esse tipo de plataforma pode trazer. De um lado, permanece a preocupação com vício em jogo e proteção do consumidor; de outro, cresce o interesse em usar mercados de previsão como fonte adicional de dados para decisões de política econômica, investimentos e gestão de risco.